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30 de março de 2014

Um olhar sobre o "espanto nacional dos 65 %": repercussão da pesquisa do IPEA/SISP.

Por Marinês Rosa

Marinês Rosa - Socióloga da Universidade do Estado do Mato Grosso

Tenho estudado as relações de gênero e o fato social violência contra as mulheres e, penso que o tema em questão, é delicado, pois envolve padrões que são produzidos e reproduzidos socialmente, no cotidiano de todos que vivem na sociedade complexa e, por isso precisam ser discutidos.

Destaco que as violências contra as mulheres, nos últimos anos, com a conquista da Lei Maria da Penha (2006), avanços nos estudos de gênero, lutas históricas de muitos e muitas na causa e, o acesso aos meios de comunicação e redes sociais, tem permitido a denúncia e anunciação desses tipos de crimes e também de outras práticas que podem colaborar no desfecho. Para além das leis, que são criadas por aqueles que nos representam, logo é nossa responsabilidade também, e sustentam-se, ou pelos menos deveriam, nos indicadores sociais, é imprescindível investir em diálogos, campanhas educativas e mobilizações (me parece que isso ocorre desde quinta feria, 27, pelo menos nas mídias de massa) que, coloquem as relações de gênero em pauta.

Esse é um assunto desconfortável para muitos, pois remete a padrões cristalizados nas instituições sociais como família, religião, educação, Estado, sistema jurídico, meios de comunicação que, de uma forma ou outra, reproduzem padrões esteriotipados de gênero nas representações idealizadas do feminino e masculino em que, há hierarquia e desvalorização de um, em relação ao outro, como por exemplo engendradas em ações simbólicas corriqueiras: "isso é coisa de menina e a aquilo é de menino". A divisão sexual do trabalho ainda segue essa lógica, assim, como a Indústria Cultural que massifica, padroniza os corpos além das dicotomias presentes na linguagem e no simbólico, todos os dias. Isso tudo, para dizer que o assunto é sério e espinhoso e por isso, tenho cuidado na abordagem.

Nesse sentido, os números do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) precisam ser LIDOS e contextualizados com cautela, principalmente, no que diz respeito à metodologia: abordagem, instrumento de coleta de dados, universo da pesquisa, tabulação dos dados e variáveis da pesquisa (idade, sexo, religião, classe social, grau de escolaridade, etc.). Assim, é impressionante a reação das pessoas, à medida que as porcentagens foram divulgadas nas redes sociais, noticiários e até, na novela global.

Observo duas situações que continuo acompanhando nas redes sociais, noticiários, mídia em geral e até na feira da tarde de sábado: o espanto com os 65% que relaciona a roupa que a mulher veste e o estupro. E o outra curiosidade, em geral, as pessoas não leram as matérias de origem e se expressaram, por vezes de forma imediata, diante de posts, que, de fato chocam e provocam. Assim, tem sido não só nesse caso, como em tantos outros. Bem, o que me intriga nesse "espanto nacional" é que foi necessário o dado 65% para que o tema chamasse a atenção, em detrimento dos CASOS DIÁRIOS, de abuso em metrôs, por exemplo, que também estão na rede.

É evidente que há relação entre as percepções dos gêneros que correspondem a valores culturais alocados aos corpos, como as práticas de violência, como o estupro, formas de violência e desrespeito às mulheres, por tudo aquilo que dissemos aqui e, ainda o que vários estudos e estudiosos vem dizendo, há muito tempo. O "espanto" me pareceu então, interessante, pois causou reação, inclusive com campanhas de repúdio, imediatamente levantadas em selfies como: uso roupa curta, não mereço ser estuprada! Ou ainda: Não faço parte dos 65%!

Como pesquisadora da área e militante da não violência contra as mulheres, preciso enfatizar que estupro é crime hediondo (Lei 12.015 de 2009), violências contra as mulheres também são crimes (Lei 11.340 de 2006) inaceitáveis, mais do que "estranhamento" e indignação nas redes sociais, que também são importantes, demandam ações concretas, pois é evidente que resultam de valores culturais e práticas machistas (femininas e masculinas) reproduzidos, nessa sociedade.


Enquanto socióloga, fundamento teoricamente as considerações que faço a seguir sobre a metodologia, tendo em vista que a pesquisa não corresponde à qualitativa que conforme Minayo (1995) se ocupa, nas Ciências Sociais, com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado, uma vez que trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. E, ainda, considero aqui as representações sociais, tal como definida por sociólogos clássicos da vertente compreensiva como Max Weber que associa "representação" à ideia, concepção e visão de mundo engendrada na conduta cotidiana dos indivíduos.

Assim, constatei (os dados não são confidenciais, todos podem fazer o mesmo exercicio acessando:http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf), que a pesquisa divulgada em 27/3, foi feita entre maio e junho de 2013, pelo SIPS/IPEA (Sistema de Indicadores de Percepção Social - consiste em pesquisa domiciliar e presencial que visa captar a percepção das famílias acerca das Políticas Públicas implementadas pelo Estado) inspirado numa pesquisa nacional realizada na Colômbia, em 2009. Aqui, no Brasil, foi adaptada e intitulada de “Tolerância social à violência contra a mulher” em municípios metropolitanos e não metropolitanos das cinco Grandes Regiões para uma amostra de 3810 indivíduos, de ambos os sexos. 

A pesquisa de “Tolerância social à violência contra a mulher”, consistiu em frases ditas aos entrevistados, que foram instruídos a dizer se concordavam ou discordavam, total ou parcialmente, do que era afirmado, como nas questões dos gráficos 24: "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e, 25: "Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros". Todas essas informações constam do relatório do SIPS.


Chamo a atenção para a frase do gráfico 24, me coloco no lugar do(a) informante e fico pensando que para a resposta, os pressupostos na frase: o "ataque", e "quem ataca", sumiram de cena, né? O foco, para a resposta, do(a) informante, provavelmente, passa a ser, em termos de representação, as personagens "mulheres", uma que mostra o corpo e a outra, que não mostra o corpo. O mesmo ocorre na frase do gráfico 25, com ainda mais ênfase, pois menciona o estupro e, remete à um certo saber comportar-se. Como assim: "soubessem como se comportar"? Que comportamento sabido é esse? 

Percebam, objetivamente, não há na pesquisa a frase: mulher que usa roupa curta, merece ser estuprada. As frases que se aproximam desse tema são as do gráfico 24 e 25. Então, de onde surge os 65% que relaciona estupro a roupa curta, divulgados, por ai? É preciso esclarecer isso! E, ainda, o título da pesquisa constitui-se da expressão tolerância, como assim? Tolerância à violência?

Neutralidade nas pesquisas, em geral, é questionável, sobretudo, numa pesquisa em que a opção metodológica dos pesquisadores foi utilizar ditos populares para observar as percepções dos informantes, o que é plausível. No caso dessa pesquisa e o assunto em questão, há de se observar ambiguidades mencionadas acima, haja vista a discrepância entre os enunciados, que à meu ver apresentam problemas e logicamente influenciam a divulgação e leitura dos mesmos.


A referida pesquisa, provoca, repercute, levanta um tema que é inadmissível para muitos. Estupro, nossa! Estupro não! Imediatamente, alguns posicionam-se: Eu faço parte dos 35% é a resposta imediata.

Pontuo, o perigo na leitura de dados, considerando uma população que não tem por hábito ler textos, quiçá as entrelinhas, ainda que superficialmente. Qualquer pesquisa precisa ser lida, principalmente, em ano eleitoral. No entanto, a responsabilidade pelo esclarecimento, entendo eu, é de quem divulga e fomenta a pesquisa. Mas, quem sou eu, na ordem do dia, para questionar a pesquisa e divulgação de institutos de referência nacional, né? 

Sim, sexismo, machismo e violências estão presentes no cotidiando e precisam ser combatidos, não podem ser tolerados. Claro, que não merecemos, ser estupradas! Não há dúvidas disso. Concordar parcial ou totalmente com o enunciado que resulta nos tais 65%, é um absurdo e, levanta-se aí uma questão grave, não é mesmo? Afinal, estupro é crime.

Ora, temo pelas interpretações imediatistas que podem banalizar o estupro e as violências, dentre outras consequências interpretativas. Se essa divulgação, como está sendo feita, servir para justificar o investimento e a urgência de outras medidas para as Políticas Públicas de Gênero, para além das Leis, como temos dito, é uma explicação. Contudo, o debate está posto e isso é inusitado. Interpretações surgirão, está na rede!

As representações machistas (tanto por parte feminina quanto masculina) são reais e fatos, ninguém pode negar, vejam os números de ocorrências diários e ainda, aquelas tantas que não são divulgadas. Por isso, o tema violência contra as mulheres precisa ser (re)visto e não (re)vestido, pois esta ai, no cotidiano. Educar para a superação da triste realidade de violências e pela paridade de gênero é urgente e possível, demanda Políticas Públicas de Gênero sérias que, precisam estar na agenda pública e não reduzidas ao espaço privado (doméstico) daqueles que vivem, em sociedade.


Esses são aspectos que "minhas lentes" captaram. Há, certamente outras lentes.


A AUTORA:
É Professora · Tangará da Serra · De 2006 até o momento
Coordenadora do Radiando Comunicação: relações de gênero em pauta e na práxis - TpM

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